PUBLICIDADE

Vorcaro admite compra e revenda de carteiras duvidosas ao BRB

Raul Holderf Nascimento

O depoimento do banqueiro Daniel Vorcaro à Polícia Federal lançou luz sobre uma complexa e controversa operação financeira envolvendo o Banco Master, a empresa Tirreno e o Banco de Brasília (BRB). As declarações de Vorcaro revelaram detalhes que apontam para uma série de inconsistências e irregularidades na aquisição e revenda de carteiras de crédito, gerando um prejuízo potencial e levantando sérias questões sobre a transparência e legalidade das transações. No centro do escândalo, o Banco Master, presidido por Vorcaro, é acusado de intermediar a venda de ativos que, segundo o próprio banqueiro, não tiveram sua origem devidamente comprovada, resultando em um esquema financeiro que agora está sob intensa investigação pelas autoridades competentes.

A controversa transação inicial

O epicentro da investigação reside na aquisição de carteiras de crédito pela Tirreno, que posteriormente foram revendidas ao BRB, com o Banco Master atuando como peça central. Daniel Vorcaro detalhou às autoridades os passos dessa operação, que despertou a atenção de reguladores e investigadores.

Os valores e a ausência de pagamento

De acordo com o relato do banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master teria adquirido carteiras de crédito da empresa Tirreno pelo montante de R$ 6,7 bilhões. Em um curto espaço de tempo, esses mesmos ativos foram negociados e revendidos ao Banco de Brasília (BRB) por um valor significativamente superior: R$ 12,2 bilhões. O BRB, um banco público, teria efetuado o pagamento integral dessa quantia em dinheiro, conforme declarado por Vorcaro. No entanto, o ponto mais alarmante e que gerou as maiores suspeitas é que, apesar de o Banco Master ter recebido os R$ 12,2 bilhões do BRB, nenhum centavo desse valor foi repassado à Tirreno, a suposta vendedora original das carteiras.

A delegada responsável pelo caso questionou intensamente a natureza e a origem desses ativos. Vorcaro mencionou a Cartos como a empresa originadora das carteiras, atribuindo-lhe uma experiência de 25 anos no setor. Contudo, a Cartos prontamente negou qualquer cessão de créditos à Tirreno, desmentindo a versão apresentada. Além disso, a própria Tirreno, uma empresa recém-criada em dezembro do ano anterior ao depoimento, não possuía histórico de movimentação financeira que justificasse a posse de carteiras de crédito de tamanha magnitude, nem recebeu qualquer pagamento do Banco Master pela suposta transação inicial. Confrontado com essas evidências, Vorcaro reconheceu que a operação de aquisição da Tirreno nunca foi efetivamente concluída, afirmando ter firmado apenas uma “promessa de transação”, que jamais foi executada na prática.

Dúvidas sobre a origem dos ativos e alertas ignorados

A complexidade da operação foi agravada pela falta de clareza sobre a verdadeira proveniência dos ativos negociados, aliada à continuidade das transações mesmo após alertas de órgãos reguladores. A Polícia Federal encontrou indícios que corroboram a tese de irregularidade.

Indícios de irregularidade e a continuidade das operações

A narrativa de Daniel Vorcaro foi posta à prova diante dos indícios levantados pela investigação. A ausência de histórico financeiro da Tirreno, uma empresa tão recente, e a negação da Cartos em relação à origem dos créditos reforçaram as suspeitas sobre a autenticidade e a solidez das carteiras de crédito. Mesmo diante de tais questionamentos e após o Banco Central (BC) ter emitido alertas formais sobre os riscos envolvidos na operação e a flagrante falta de documentação comprobatória, Vorcaro admitiu ter continuado a negociar com a Tirreno.

Um relatório da Polícia Federal apontou que, após o mês de abril, outros dez contratos foram firmados entre o Banco Master e a Tirreno, totalizando um montante adicional de R$ 8 bilhões. Questionado sobre essa continuidade, o banqueiro justificou que as novas negociações ocorreram porque ele estava “pressionando” a parceira comercial para que entregasse a documentação adequada dos ativos. No entanto, ao ser inquirido sobre a origem real dos papéis que haviam sido vendidos ao BRB, Vorcaro surpreendentemente alegou não saber de onde as carteiras realmente vinham. Essa confissão levantou ainda mais preocupações sobre a diligência do Banco Master na avaliação dos ativos e a conformidade das operações financeiras.

O papel do BRB e a complexidade do reembolso

A investigação também se debruçou sobre o papel do BRB, o banco público que adquiriu as carteiras, e a forma como o “reembolso” foi conduzido após a constatação das irregularidades. A ausência de um ressarcimento direto adiciona mais uma camada de complexidade ao caso.

Conhecimento prévio e a substituição de ativos

A complexidade da teia de relações se aprofundou com a revelação de que o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, com quem Daniel Vorcaro mantinha relações comerciais há cerca de um ano, estaria ciente das inconsistências dos ativos desde maio. Apesar desse conhecimento, as transações continuaram e, o que é ainda mais grave, nenhum valor foi devolvido diretamente ao BRB. A Polícia Federal destacou que, mesmo após a operação ser formalmente desfeita, o dinheiro pago pelo BRB nunca foi reembolsado de maneira efetiva em espécie.

Vorcaro reconheceu que a “devolução” dos valores foi realizada por meio de um complexo arranjo de trocas contratuais e substituição de ativos. Parte dos papéis teria sido negociada diretamente entre o BRB e a Tirreno, uma situação peculiar considerando que, até então, não existia qualquer vínculo contratual direto entre as duas instituições. Inicialmente, os R$ 12,2 bilhões recebidos do BRB seriam referentes a carteiras de crédito consignado, conhecidas pela alta liquidez. Contudo, após a constatação da fraude e das irregularidades, esses papéis foram substituídos por ativos de menor liquidez e valor. Uma parcela desses novos ativos era proveniente do Will Bank, instituição que integrava o mesmo grupo do Banco Master e que foi liquidada pelo Banco Central em janeiro. A situação se complicou ainda mais porque os pagamentos dos devedores dessas carteiras, que deveriam ir para o BRB, seguiam sendo direcionados ao Will Bank. A expectativa era que o Will, por sua vez, os repassasse ao Banco Master e, finalmente, ao BRB, um fluxo que, segundo o próprio Vorcaro, “nunca aconteceu”, deixando o BRB sem o retorno esperado de seus investimentos.

Implicações e desdobramentos da investigação

As revelações de Daniel Vorcaro ao longo do depoimento à Polícia Federal desenham um cenário de grave irregularidade e potencial fraude, com impactos significativos para as instituições financeiras envolvidas e para o sistema financeiro como um todo. A falta de transparência na origem dos ativos, a ausência de pagamentos à suposta vendedora, a desconsideração dos alertas do Banco Central e a complexa e indireta forma de “reembolso” evidenciam uma série de falhas e talvez intenções questionáveis.

A investigação da Polícia Federal, com o suporte de relatórios detalhados, segue buscando desvendar todas as camadas dessa intrincada operação. As inconsistências nos depoimentos e a documentação precária ou inexistente para amparar transações de bilhões de reais colocam em xeque a governança e a conformidade das operações do Banco Master e a diligência do BRB em suas aquisições. Os desdobramentos podem resultar em acusações criminais, multas regulatórias severas e um profundo impacto na reputação e nas operações dos envolvidos. O caso serve como um alerta para a necessidade de rigor e fiscalização contínua no mercado financeiro, especialmente em transações que envolvem volumes tão expressivos e players que atuam em um ambiente de constante vigilância regulatória.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que são “carteiras podres” no contexto desta notícia?
No jargão financeiro, “carteiras podres” ou “carteiras duvidosas” referem-se a carteiras de crédito que contêm grande quantidade de empréstimos e financiamentos com alto risco de inadimplência ou que já estão inadimplentes. Neste caso, a expressão foi usada para descrever ativos cuja origem e valor real eram questionáveis, levantando suspeitas de irregularidade.

Qual foi o papel da empresa Tirreno nesta operação?
A Tirreno foi apresentada como a vendedora original das carteiras de crédito ao Banco Master. No entanto, a investigação revelou que a empresa era recém-criada, sem histórico financeiro, e, crucialmente, nunca recebeu o pagamento pela suposta venda dos R$ 6,7 bilhões ao Banco Master, o que levanta sérias dúvidas sobre sua legitimidade na operação.

Por que o Banco Central alertou sobre a operação?
O Banco Central alertou sobre a operação devido aos riscos envolvidos e à falta de documentação comprobatória das transações. A fragilidade na identificação da origem dos ativos e a forma como a operação estava sendo conduzida geraram preocupações quanto à segurança e à conformidade regulatória.

Como o BRB foi “reembolsado” pelos R$ 12,2 bilhões?
O BRB não foi reembolsado diretamente em dinheiro. Segundo Vorcaro, a devolução foi feita por meio de “trocas contratuais e substituição de ativos”, onde carteiras de crédito consignado de alta liquidez foram trocadas por ativos de menor liquidez e valor, alguns provenientes do Will Bank. Contudo, os pagamentos dessas novas carteiras não chegaram ao BRB.

Para entender mais sobre as implicações e o andamento dessas investigações financeiras, acompanhe as atualizações em nosso portal.

Fonte: https://www.conexaopolitica.com.br

Leia mais

PUBLICIDADE