Um modelo de turismo que prioriza o respeito ao território, à população local e à natureza está ganhando força na Costa Verde do Rio de Janeiro. O Projeto Roteiro Caiçara, iniciativa voltada para o turismo de base comunitária (TBC), completou recentemente seis meses de atividades, marcando o encerramento de sua fase inicial de formações e reuniões. Com a proposta de engajar diretamente as comunidades na gestão e oferta de produtos e serviços turísticos, o projeto visa a um desenvolvimento mais equitativo e sustentável para a região. Doze comunidades tradicionais, entre caiçaras e quilombolas, localizadas em Paraty e Ilha Grande (Angra dos Reis), são as protagonistas dessa transformação, preparando-se para a segunda fase de atuação em 2026.
A essência do turismo de base comunitária
Um modelo de desenvolvimento sustentável
O turismo de base comunitária (TBC) representa uma abordagem distinta do setor turístico, onde a organização das visitas e a gestão das atividades são lideradas pela própria comunidade. Este modelo busca não apenas oferecer experiências autênticas aos visitantes, mas, fundamentalmente, respeitar os modos de vida tradicionais, a cultura local e a integridade ambiental do território. Na Costa Verde fluminense, o TBC é protagonizado por comunidades tradicionais — caiçaras, indígenas e quilombolas — que gerenciam produtos e serviços turísticos de forma coletiva ou familiar.
Mais do que uma simples proposta turística, o TBC na região emerge de uma longa história de resistência. Desde os anos 1970, com a abertura da BR-101, esses territórios têm enfrentado intensas pressões de grilagem e especulação imobiliária. Atualmente, a esses desafios somam-se os impactos negativos do turismo de massa, que frequentemente concentra a renda em poucas mãos e acentua problemas ambientais e sociais. A coordenadora do Projeto Roteiro Caiçara, Bete Canela, destaca a diferença crucial: enquanto o turismo de massa é muitas vezes promovido por agentes externos, o TBC fortalece quem já reside e atua no território há gerações. “Nosso projeto objetiva fortalecer quem está no território: as comunidades caiçaras, quilombolas, que estão ali há muito tempo e que oferecem serviços turísticos”, explica Canela.
Ao fortalecer o TBC, o projeto também promove uma profunda valorização cultural da região. Canela enfatiza que essa modalidade de turismo vai muito além da oferta de um quiosque ou de um mergulho em cachoeira. “Ele conta a história do lugar, ele conta as tradições, a culinária, o artesanato. Então, tudo isso que é local, que as pessoas têm essa riqueza de saberes, isso entra também no projeto”, afirma. A ideia central é que o TBC distribua melhor os benefícios econômicos, mantendo a circulação de renda na comunidade, valorize a cultura e os saberes locais sem transformá-los em meros produtos, e reduza os impactos negativos, com regras e limites de visitação que protegem a natureza e a qualidade de vida dos moradores. Em áreas de alta sensibilidade ambiental, como unidades de conservação, o TBC se alinha intrinsecamente à conservação, pois os habitantes locais possuem conhecimento aprofundado do ambiente e interesse direto em sua preservação.
O projeto Roteiro Caiçara em ação
Frentes de atuação e primeiros resultados
O Projeto Roteiro Caiçara, uma iniciativa de três anos, engloba seis períodos de atividades focadas no turismo de base comunitária, na conservação ambiental e na valorização cultural das comunidades tradicionais de Paraty e Ilha Grande. O projeto é realizado pelo Instituto Caminho da Mata Atlântica (ICMA), uma organização dedicada à conservação e recuperação da Mata Atlântica, que promove o desenvolvimento socioeconômico inclusivo e a valorização do patrimônio natural e cultural.
A atuação do projeto se desdobra em cinco frentes estratégicas: capacitações para o turismo, obras de infraestrutura, manejo de trilhas, definição de roteiros turísticos e conservação da natureza. A coordenadora Bete Canela ressalta que as obras de infraestrutura são um “legado físico” fundamental. “Por exemplo, tem comunidades que querem reformar um píer, por onde chegam os turistas, e precisam desse recurso. Outras querem fazer um centro de atendimento ao turista, porque não têm”, detalha Canela, explicando que cada comunidade levanta suas necessidades, e o projeto auxilia no financiamento.
O primeiro período de atuação, iniciado em julho de 2025 e concluído em dezembro do mesmo ano, já demonstrou resultados promissores. Foram iniciados três cursos de Formação Básica para Condutores Ambientais: um em Trindade, Paraty, com 42 participantes (dois de cinco módulos concluídos), e dois na Ilha Grande — um na Enseada das Estrelas, com 23 participantes, e outro na Praia de Bananal, com 15 participantes (um módulo realizado em cada). Estes cursos, mais compactos, visam formalizar a atuação de guias locais. “Muita gente que está nesses locais e já fazia isso de maneira informal agora vai poder ter o curso, a carteirinha e trabalhar de maneira formal”, explica Canela.
Além das capacitações, o semestre inicial de 2025 foi marcado por intensas interações comunitárias. Foram realizadas 12 reuniões para a apresentação do projeto e outras 12 para o planejamento de obras de infraestrutura e apresentação das equipes de fauna e flora, tanto em Paraty quanto na Ilha Grande. Cinco reuniões foram dedicadas ao planejamento do monitoramento da flora e duas ao da fauna em Paraty. Na Ilha Grande, houve duas reuniões para mapeamento e formatação de roteiros turísticos. Em Paraty, arquitetos se reuniram cinco vezes para o planejamento das obras. No total, as ações do primeiro período mobilizaram aproximadamente 260 pessoas. O Projeto Roteiro Caiçara conta com o patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental, e inicia seu segundo período de atividades no primeiro semestre de 2026.
Perspectivas e o futuro do turismo consciente
O Projeto Roteiro Caiçara representa um passo significativo para a valorização e o desenvolvimento sustentável da Costa Verde fluminense, através do fortalecimento do turismo de base comunitária. Ao empoderar as comunidades caiçaras e quilombolas, o projeto não apenas gera renda e oportunidades, mas também salvaguarda o riquíssimo patrimônio cultural e ambiental da região. A iniciativa demonstra que é possível conciliar o desenvolvimento turístico com a preservação das identidades locais e a conservação da natureza, criando um ciclo virtuoso de benefícios. A visão de coexistência entre diferentes modelos de turismo, defendida por Bete Canela, aponta para um futuro onde o respeito e a sustentabilidade são os pilares da interação entre visitantes e moradores, garantindo que a beleza e a história da Costa Verde permaneçam vivas para as próximas gerações. O legado duradouro do Roteiro Caiçara se manifesta tanto nas melhorias físicas quanto, e principalmente, no fortalecimento do capital humano e cultural dessas comunidades.
FAQ: Entenda o turismo de base comunitária
O que é turismo de base comunitária (TBC)?
O TBC é um modelo de turismo onde as próprias comunidades locais são protagonistas na organização, planejamento e condução das atividades turísticas, garantindo que as decisões e a maior parte da renda permaneçam no território. Ele prioriza o respeito à cultura, aos modos de vida tradicionais e à conservação ambiental, oferecendo experiências autênticas e benefícios reais para os moradores.
Quais os principais objetivos do Projeto Roteiro Caiçara?
O Projeto Roteiro Caiçara tem como objetivo principal fortalecer o turismo de base comunitária na Costa Verde fluminense. Isso é alcançado através de capacitações para o turismo, melhorias na infraestrutura local, manejo de trilhas, definição de roteiros turísticos autênticos e ações de conservação da natureza, visando ao desenvolvimento socioeconômico inclusivo e à valorização cultural e ambiental.
Quais comunidades estão envolvidas no projeto?
O projeto engloba 12 comunidades caiçaras e quilombolas. Em Paraty, participam: Saco do Mamanguá, Trindade, Parati Mirim, Praia do Sono, Ponta Negra e São Gonçalo. Em Ilha Grande, no município de Angra dos Reis, as comunidades envolvidas são: Bananal, Matariz, Aventureiro, Enseada das Estrelas, Dois Rios e Praia Vermelha.
Como o TBC se diferencia do turismo tradicional ou de massa?
A principal diferença está no protagonismo local. Enquanto o turismo de massa é muitas vezes planejado e operado por empresas e agentes externos que podem concentrar a renda e gerar impactos ambientais e sociais, o TBC garante que a comunidade toma as decisões, cuida do planejamento e recebe os benefícios econômicos, valorizando sua cultura e protegendo seu território. O TBC busca contar a história do lugar, suas tradições e saberes, em vez de apenas oferecer pontos turísticos.
Para saber mais e apoiar o desenvolvimento sustentável das comunidades locais, procure os roteiros e serviços oferecidos pelo turismo de base comunitária na Costa Verde Fluminense. Sua visita consciente faz a diferença!
