A Polícia Federal (PF) revelou a identificação de ao menos seis viagens aéreas realizadas pela empresária e lobista Roberta Moreira Luchsinger e por Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os deslocamentos, que incluem um trecho internacional para Portugal e cinco voos domésticos, chamam atenção por terem sido registrados sob os mesmos códigos localizadores de reserva, levantando questões sobre a natureza do relacionamento e das atividades de ambos. As informações emergem da nova fase da Operação Sem Desconto, deflagrada em 20 de dezembro de 2025, que investiga um complexo esquema de descontos irregulares aplicados a aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Roberta Luchsinger foi alvo de busca e apreensão na operação.
Os rastros das viagens e as medidas cautelares
A Operação Sem Desconto aprofundou suas investigações, e os registros das viagens de Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva surgem como um dos pontos centrais da análise da Polícia Federal. Os deslocamentos abrangem um período entre junho de 2024 e junho de 2025, evidenciando uma sequência de coincidências nos códigos de reserva que a PF considera relevante para o inquérito.
A empresária Roberta Luchsinger foi submetida a rigorosas medidas cautelares determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ela foi obrigada a utilizar uma tornozeleira eletrônica, entregar seu passaporte e está proibida de deixar o território brasileiro. Além disso, foi imposta a ela a restrição de manter distância de outros indivíduos sob investigação. Estas ações foram implementadas após solicitação da Polícia Federal, com base em fortes indícios coletados ao longo da fase investigatória da operação, que visam garantir a integridade do processo e evitar a obstrução da justiça.
Detalhes dos deslocamentos aéreos
A Polícia Federal detalhou as seis viagens que compartilham os mesmos códigos localizadores de reserva, um padrão incomum que motivou a atenção dos investigadores. Esses registros aéreos são peças-chave no quebra-cabeça da Operação Sem Desconto.
Os voos identificados incluem:
Guarulhos (SP) → Lisboa (Portugal): Em 13 de junho de 2024, no voo TAP 0088, com o localizador 4FUJPX. Este foi o único trecho internacional da lista.
Congonhas (SP) → Brasília (DF): Em 29 de abril de 2025, no voo Latam 4700, com o localizador MKRQIZ.
Congonhas (SP) → Brasília (DF): Em 27 de maio de 2025, no voo Latam 3606, com o localizador WAUUEX.
Brasília (DF) → Congonhas (SP): Em 29 de maio de 2025, no voo Latam 3606, com o localizador DCWWNL.
Guarulhos (SP) → São Luís (MA): Em 19 de junho de 2025, no voo Latam 3612, com o localizador CHEWWQ.
Congonhas (SP) → Brasília (DF): Em 24 de junho de 2025, no voo Latam 4700, com o localizador MSPQMW.
A investigação aponta que, na grande maioria dessas reservas, constavam apenas os nomes de Roberta Luchsinger e Fábio Luís. Contudo, no voo com destino a São Luís, no Maranhão, o mesmo código localizador foi utilizado para seis passageiros. Além de Roberta e Fábio Luís, o registro incluía a esposa de Lulinha, Renata de Abreu Moreira, os dois filhos do casal e uma filha de Roberta, sugerindo uma viagem em família sob uma reserva compartilhada.
Vínculos pessoais, acessos ao Planalto e movimentações financeiras
A complexidade da investigação se aprofunda ao considerar os laços pessoais entre os envolvidos e os registros de acesso a órgãos do governo, além de transações financeiras suspeitas. Roberta Luchsinger, que é herdeira de Peter Paul Arnold Luchsinger (ex-acionista do Credit Suisse) e ex-esposa do ex-delegado Protógenes Queiroz, demonstra possuir uma rede de contatos significativa.
Os registros obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram que Roberta esteve no Palácio do Planalto em duas ocasiões em abril de 2024: no dia 17, às 17h30, e no dia 18, às 12h30. Fábio Luís, por sua vez, também compareceu à sede do Executivo em múltiplas datas no mesmo ano: 17 de janeiro, 31 de janeiro e 7 de março. A presença de ambos, mesmo que em datas distintas, no centro do poder executivo, é um ponto observado pela investigação no contexto da Operação Sem Desconto.
Laços familiares e financeiros
A Polícia Federal também destacou o vínculo pessoal entre Roberta Luchsinger e a família de Fábio Luís. Nas redes sociais, Roberta se descreve como “BFF” (melhor amiga para sempre) de Renata de Abreu Moreira, esposa de Lulinha, a quem se refere como “irmã de alma”. As duas possuem tatuagens idênticas, um fato registrado pela PF como evidência adicional da estreita relação pessoal entre elas.
No que tange às finanças, a investigação revelou transações financeiras vultosas ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado como peça-chave no esquema de fraudes. Documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam pagamentos que totalizam R$ 1,5 milhão, divididos em cinco repasses de R$ 300 mil cada, para a empresa RL Consultoria e Intermediações Ltda., de propriedade de Roberta Luchsinger. A PF interceptou mensagens nas quais um funcionário questiona o destino de uma nova transferência e recebe a resposta “O filho do rapaz”. O comprovante subsequente dessa transação foi direcionado para a empresa de Roberta, levando a Polícia Federal a inferir que sua atuação seria “essencial para ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de estruturas utilizadas como instrumentos de lavagem de capitais”.
As defesas e o cenário da investigação
Diante das revelações, as partes mencionadas se manifestaram por meio de suas defesas. Roberta Luchsinger, em contato telefônico, optou por não responder diretamente, direcionando a imprensa ao seu advogado. Bruno Salles, defensor da empresária, afirmou que “tem muita coisa completamente descontextualizada ali e que será objeto de esclarecimento no momento oportuno”. A defesa de Roberta sustenta que ela “jamais teve qualquer relação com descontos do INSS” e que suas atividades se restringem à “prospecção e intermediação de negócios”.
Quanto a Fábio Luís Lula da Silva, Marco Aurélio de Carvalho, amigo de Lulinha, informou que ele permanece sem advogado por não ser formalmente alvo das investigações. Esta informação é corroborada pelos relatórios da própria Polícia Federal.
Internamente, a PF registra divergências de análise sobre o possível envolvimento de Fábio Luís. Uma parcela da força-tarefa defende aprofundar a investigação sobre a sua participação, enquanto outra ala considera que tal avanço seria precipitado, devido à falta de uma base probatória mais robusta que o vincule diretamente aos descontos fraudulentos. Até o momento, a visão predominante dentro da instituição é de que “o filho do presidente não está diretamente envolvido nas condutas relativas aos descontos associativos fraudulentos”, com base nas evidências coletadas até agora.
Cenário da investigação e próximos passos
A Operação Sem Desconto continua a desvendar intrincados esquemas que afetam aposentados e pensionistas do INSS, com a Polícia Federal atuando para identificar e responsabilizar os envolvidos. A identificação de viagens com códigos de reserva idênticos, a proximidade pessoal e os fluxos financeiros são elementos cruciais que estão sendo detalhados pela investigação. O papel da empresária Roberta Luchsinger é considerado central, culminando nas medidas cautelares impostas pelo STF.
Embora o nome de Fábio Luís Lula da Silva tenha surgido nos registros de voos e laços pessoais, a PF, neste estágio, não o considera um alvo formal do inquérito principal que apura as fraudes. A cautela da Polícia Federal em relação à sua possível implicação reflete a complexidade e a sensibilidade do caso, exigindo provas irrefutáveis para qualquer avanço em sua direção. Os próximos passos da investigação incluirão a análise aprofundada dos documentos apreendidos, o cruzamento de dados bancários e telemáticos, e a eventual oitiva de testemunhas e investigados para consolidar o arcabouço probatório e determinar as responsabilidades em todas as camadas do esquema. A elucidação completa dos fatos é fundamental para garantir a justiça e a reparação às vítimas dos descontos indevidos.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é a Operação Sem Desconto?
A Operação Sem Desconto é uma ação da Polícia Federal que investiga um esquema de descontos irregulares aplicados a aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A operação visa desarticular uma rede de fraudes que prejudicava segurados.
Quem é Roberta Moreira Luchsinger e qual seu papel na investigação?
Roberta Moreira Luchsinger é uma empresária e lobista que foi alvo de busca e apreensão na Operação Sem Desconto. Ela é herdeira de um ex-acionista do Credit Suisse e ex-esposa do ex-delegado Protógenes Queiroz. A PF aponta que sua empresa, RL Consultoria e Intermediações Ltda., recebeu pagamentos significativos ligados a um dos investigados e que sua atuação seria “essencial para ocultação de patrimônio e lavagem de capitais”. Medidas cautelares, como tornozeleira eletrônica e proibição de deixar o país, foram impostas a ela.
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é investigado formalmente?
Não. De acordo Embora seu nome tenha aparecido em registros de voos com Roberta Luchsinger e haja laços pessoais, a PF, até o momento, não o considera diretamente envolvido nas condutas relativas aos descontos associativos fraudulentos. Ele não foi alvo de medidas cautelares.
Quais são os indícios que levaram a PF a investigar a relação entre Roberta Luchsinger e Lulinha?
Os indícios incluem a identificação de pelo menos seis viagens aéreas (um trecho internacional e cinco domésticos) em que Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva utilizaram os mesmos códigos localizadores de reserva. Além disso, a investigação notou o vínculo pessoal entre Roberta e Renata de Abreu Moreira (esposa de Lulinha), com evidências como tatuagens idênticas e a descrição de “irmãs de alma” nas redes sociais. Há também a conexão com transações financeiras da empresa de Roberta Luchsinger, que teriam sido usadas para lavagem de capitais ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
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