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Fim da escala 6×1 amplia acesso da mulher ao trabalho, afirma ministra

© Lula Marques/Agência Brasil.

O debate sobre o fim da escala 6×1, um regime de trabalho que concede apenas um dia de folga semanal, ganha destaque no cenário político e social brasileiro. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, posicionou-se enfaticamente a favor da alteração, descrevendo-a como uma “exigência do nosso tempo”. Segundo a ministra, a mudança será crucial para que as mulheres tenham maior acesso e melhores condições no mercado de trabalho, além de proporcionar uma significativa melhoria na qualidade de vida. A discussão acontece em meio à tramitação de diversas propostas no Congresso Nacional que visam reduzir a jornada de trabalho e garantir dois dias de descanso remunerado, refletindo uma crescente pressão popular e legislativa por reformulações nas relações trabalhistas. Essa transformação, argumenta a ministra, não apenas combate a sobrecarga histórica imposta às mulheres, mas também impulsiona a igualdade de gênero no ambiente profissional.

A jornada 6×1 e a sobrecarga feminina

A ministra Márcia Lopes é categórica ao afirmar que as mulheres são as principais prejudicadas pelo atual modelo de trabalho 6×1. Sua análise aponta para a histórica sobrecarga imposta às mulheres, que, além do trabalho remunerado, frequentemente dedicam uma parte substancial de seu tempo ao trabalho não remunerado, como os afazeres domésticos, o cuidado com os filhos e o estudo. Essa realidade cria uma “dupla, tripla jornada” que impede o pleno desenvolvimento e bem-estar feminino.

Para a ministra, a alteração na jornada não é apenas uma questão de dignidade, mas uma ferramenta estratégica para combater a desigualdade de gênero. Ao garantir mais tempo livre, as mulheres poderão cuidar melhor da saúde, fortalecer as relações familiares e comunitárias, e até mesmo investir em formação ou empreendedorismo. Essa perspectiva é reforçada por dados sobre a desigualdade salarial, onde mulheres brasileiras recebem, em média, 21,3% menos que homens para a mesma função, evidenciando um cenário de disparidade que o fim da escala 6×1 pode ajudar a mitigar, ao permitir que as mulheres acessem e se mantenham em melhores oportunidades de trabalho.

Propostas legislativas em debate

O Congresso Nacional está atualmente imerso na análise de diversas propostas que visam modificar a jornada de trabalho no país. O Projeto de Lei (PL) 1838/2026, de autoria do governo federal, é um dos pilares dessa discussão. Ele propõe a redução do limite máximo da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com a garantia de dois dias de descanso remunerado por semana, sem qualquer prejuízo salarial aos trabalhadores. O governo solicitou regime de urgência para a tramitação deste PL, que aguarda despacho para ser analisado na Câmara dos Deputados.

Além do PL, duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC), a PEC 221/19 e a PEC 8/25, também abordam a questão do fim da escala 6×1. Recentemente, uma comissão especial foi instaurada na Câmara para analisar essas matérias de forma conjunta, demonstrando a relevância e a complexidade do tema. A articulação entre as diversas propostas legislativas sinaliza um momento decisivo para a redefinição das condições de trabalho no Brasil.

Desigualdade de gênero no trabalho

A discussão sobre o fim da escala 6×1 é intrinsecamente ligada à questão da desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Um relatório recente, o 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios do Ministério do Trabalho e Emprego, revelou que mulheres no setor privado (empresas com 100 ou mais empregados) recebem, em média, R$ 787 para cada R$ 1000 pagos a homens, para funções equivalentes. Esta disparidade de 21,3% reforça a urgência de políticas que promovam a equidade.

A Lei nº 14.611, de julho de 2023, já estabelece a obrigatoriedade da igualdade salarial entre homens e mulheres que desempenham a mesma função e exige que empresas com mais de 100 empregados divulguem seus salários para garantir transparência. Nesse contexto, o fim da escala 6×1 é visto como um passo fundamental para não apenas combater a sobrecarga, mas também para melhorar a empregabilidade feminina e permitir que as mulheres, especialmente as periféricas e negras, acessem e conquistem espaços e condições de trabalho mais justos e melhores.

Benefícios além do gênero

Para a ministra das Mulheres, os impactos positivos da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6×1 se estenderão para além da questão de gênero, alcançando a economia e a sociedade como um todo. A expectativa é de que a mudança resulte na redução do absenteísmo, que engloba faltas, atrasos e saídas antecipadas, trazendo mais produtividade e eficiência para as empresas.

Além disso, a ministra destaca que a maior disponibilidade de tempo livre se traduzirá em um aumento da dignidade humana e na capacidade de os indivíduos utilizarem esse tempo para atividades de lazer e cultura, como ir ao cinema ou visitar museus. Isso também permitiria uma melhor alimentação, a organização e o fortalecimento de comunidades e territórios, e até mesmo o estímulo ao empreendedorismo. Essa visão sugere um ciclo virtuoso, onde o bem-estar do trabalhador, especialmente da mulher, impulsiona benefícios sociais e econômicos mais amplos.

Divergências sobre o impacto econômico

Apesar do otimismo de alguns setores, a possível redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1 geram debates e estimativas econômicas divergentes. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) manifestou preocupação, apontando para um possível prejuízo à competitividade do setor industrial. Segundo cálculos da CNI, a medida poderia resultar em uma perda de R$ 76 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) do país e um aumento médio de 6,2% nos preços ao consumidor, impulsionando a inflação.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) ecoa essas preocupações, projetando que a redução da jornada aumentaria os custos com a folha salarial em 21% e resultaria em uma pressão inflacionária com o repasse de preços ao consumidor, que poderia chegar a 13%. Em contrapartida, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do Planejamento e Orçamento, apresenta uma perspectiva mais moderada. O Ipea defende que os custos de uma eventual redução da jornada seriam similares aos impactos observados em reajustes históricos do salário mínimo, indicando que o mercado de trabalho teria capacidade de absorver a medida sem grandes choques. Essas diferentes análises demonstram a complexidade de prever os efeitos econômicos de uma mudança tão significativa.

Mobilização e apoio popular

A ministra Márcia Lopes, que também preside o Conselho Nacional de Direito da Mulher, destaca a intensa mobilização de grupos de mulheres em prol do fim da escala 6×1. Esses grupos têm buscado articulação direta com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, para pressionar pela aprovação das propostas. A ministra ressalta a força e a capacidade de organização feminina, afirmando que “as mulheres são fortes, são mobilizadas e já estão fazendo isso”.

Apesar da existência de posicionamentos contrários, a ministra expressa otimismo, considerando que as manifestações populares, inclusive nos atos de 1º de Maio, reforçam a demanda por essa mudança. Em um evento recente, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou um investimento de R$ 80 milhões para iniciativas que beneficiam mulheres empreendedoras e o “trabalho do cuidado” em periferias, como cozinhas comunitárias e lavanderias públicas. Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES, enfatizou a ligação entre o fim da escala 6×1 e a melhoria da condição de vida das mulheres, afirmando que a luta é pelo “direito a se cuidar, ter direito ao fim de semana, ao autocuidado”.

Conclusão

A proposta de pôr fim à escala de trabalho 6×1, substituindo-a por um modelo que assegure dois dias de descanso semanal remunerado, representa um marco significativo na evolução das leis trabalhistas brasileiras. Conforme defendido pela ministra Márcia Lopes e apoiado por diversos setores da sociedade, essa mudança não é apenas uma “exigência do nosso tempo”, mas uma medida essencial para combater a histórica sobrecarga imposta às mulheres, que, devido a papéis sociais enraizados, frequentemente enfrentam jornadas múltiplas. Ao proporcionar mais tempo para o autocuidado, o fortalecimento das relações familiares e comunitárias, e o investimento em desenvolvimento pessoal e profissional, o fim da escala 6×1 pode impulsionar a empregabilidade feminina e contribuir substancialmente para a redução da desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Embora haja divergências sobre os impactos econômicos da medida, com algumas projeções indicando custos e outras sugerindo absorção pelo mercado, o debate legislativo e a mobilização popular sinalizam um compromisso crescente com a dignidade e a equidade no ambiente de trabalho, prometendo reflexos positivos que se estendem por toda a sociedade.

FAQ

O que é a escala 6×1 e por que sua extinção está em discussão?
A escala 6×1 é um regime de trabalho onde o empregado tem apenas um dia de folga a cada seis dias trabalhados. Sua extinção está em discussão por ser considerada um modelo que gera sobrecarga, especialmente para as mulheres, e por não oferecer tempo suficiente para descanso, saúde e convívio social e familiar. Há propostas legislativas para substituí-la por um modelo com dois dias de descanso semanal.

Quais são os principais argumentos a favor do fim da escala 6×1, especialmente para as mulheres?
Os principais argumentos incluem a melhoria da qualidade de vida e da saúde das mulheres, que historicamente enfrentam dupla ou tripla jornada de trabalho (remunerado e não remunerado). A mudança permitiria maior acesso ao mercado de trabalho, redução da desigualdade de gênero, mais tempo para lazer, estudos, autocuidado e fortalecimento de laços familiares e comunitários, além de poder estimular o empreendedorismo feminino.

Existem impactos econômicos negativos previstos com a mudança da jornada?
Sim, há projeções econômicas divergentes. Entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) preveem impactos negativos como perda no PIB, aumento de custos para as empresas (folha salarial) e pressão inflacionária com repasse de preços ao consumidor. Por outro lado, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sugere que os custos seriam absorvíveis, similares aos observados em reajustes do salário mínimo, minimizando os impactos negativos.

Mantenha-se informado sobre os próximos desdobramentos dessa importante discussão no Congresso Nacional e seus impactos no futuro do trabalho no Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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