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Eleição em Portugal: Direita avança, esquerda se fragmenta e haverá segundo turno

Raul Holderf Nascimento

A eleição presidencial em Portugal, realizada no domingo, dia 18, resultou em um cenário inédito para a democracia recente do país, com a necessidade de um segundo turno para definir o próximo chefe de Estado. Após uma intensa disputa, o ex-líder do Partido Socialista (PS), António José Seguro, e o presidente do partido Chega, André Ventura, emergiram como os candidatos mais votados, sem que nenhum deles atingisse a maioria absoluta necessária para uma vitória no primeiro escrutínio. Este desfecho marca a primeira vez em quarenta anos que os eleitores portugueses serão chamados novamente às urnas para a escolha presidencial. A disputa para o segundo turno, agendada para o dia 8 de fevereiro, reflete uma significativa reorganização do panorama político português, com a ascensão da direita e a notável fragmentação das forças de esquerda.

O resultado do primeiro turno e o sistema semipresidencialista

A disputa voto a voto

Com a apuração de 99,02% das urnas, os números confirmaram António José Seguro (PS, centro-esquerda) na liderança, com 31,04% dos votos válidos. Em segundo lugar, e garantindo sua vaga no segundo turno, André Ventura (Chega, direita) obteve 23,61% dos sufrágios. A incapacidade de qualquer um dos concorrentes em alcançar os 50% mais um voto, conforme exigido pela Constituição portuguesa, selou a necessidade de uma nova votação. Este evento é historicamente relevante, pois remonta a quatro décadas a última vez que o povo português teve de retornar às urnas para uma segunda volta presidencial. A expectativa agora se volta para a capacidade de cada candidato em atrair eleitores de outros espectros políticos para consolidar a vitória.

As atribuições do presidente em Portugal

O sistema de governo em Portugal é semipresidencialista, uma particularidade que distingue o papel do presidente da República de um chefe de governo. Embora o primeiro-ministro exerça a chefia de governo, o presidente possui funções constitucionais de grande relevância e poderes substanciais, que vão além de um papel meramente protocolar. Entre suas atribuições essenciais, destacam-se a nomeação do primeiro-ministro, geralmente após eleições legislativas, e a promulgação ou veto de leis aprovadas pela Assembleia da República. O presidente também tem a prerrogativa de convocar referendos sobre questões de interesse nacional, atua como comandante supremo das Forças Armadas e é o principal representante do país no exterior, zelando pela política externa. Uma das mais poderosas, embora raramente utilizada, é a capacidade de dissolver a Assembleia da República e convocar novas eleições, medida que não foi adotada na história democrática recente do país. Essa influência presidencial confere ao cargo uma importância estratégica na estabilidade e direção política de Portugal.

A fragmentação da esquerda e o avanço da direita

O cenário de múltiplas candidaturas

O elevado número de candidaturas à presidência já havia sinalizado, desde o início da campanha, a forte probabilidade de um segundo turno. A fragmentação do cenário político, em particular à esquerda, e a emergência de novas figuras à direita, dificultaram a concentração de votos em um único candidato. Uma pesquisa boca de urna conduzida pela Universidade Católica para a RTP, divulgada no próprio dia da votação, antecipava corretamente que Seguro e Ventura liderariam a corrida. Além dos dois finalistas, outros nomes conquistaram votações expressivas que, embora insuficientes para avançar, demonstram a diversidade do espectro político. João Cotrim Figueiredo (IL, centro-direita) alcançou 15,88% dos votos, enquanto Henrique Gouveia e Melo (independente, direita) somou 12,36%. Luís Marques Mendes (PSD, centro-direita) obteve 11,44%, consolidando a presença de várias opções fora dos partidos tradicionais.

A guinada política e o “voto útil”

A eleição presidencial expôs de forma contundente a fragilidade atual da esquerda portuguesa. Durante a campanha, foram feitos apelos públicos e internos para que candidaturas de espectro esquerdista fossem retiradas em prol de António José Seguro. O objetivo primordial era consolidar o campo progressista e, assim, tentar evitar um segundo turno polarizado, no qual a direita estaria em posição de força. A estratégia do “voto útil” foi a tônica da campanha do ex-dirigente socialista, que buscou unir a esquerda e o centro-esquerda como uma barricada contra o avanço das forças conservadoras e de direita radical. Contudo, a diversidade de candidaturas e a dificuldade em mobilizar o eleitorado em torno de um único nome impediram essa consolidação, evidenciando uma crise de representação e de unidade no campo progressista.

Contexto das legislativas recentes

Para compreender a fundo o resultado da eleição presidencial, é fundamental analisar as tendências observadas nas disputas legislativas anteriores, que servem como um termômetro do humor político português. Desde 2019, o partido Chega experimentou um crescimento exponencial e sem precedentes, passando de um único deputado na Assembleia da República para um impressionante total de 60 parlamentares. Esse salto reflete uma mudança significativa no eleitorado, com uma parcela crescente buscando alternativas à direita tradicional. Em contraste, o Partido Socialista (PS), que havia conquistado uma maioria absoluta com 120 cadeiras em 2022, sofreu um revés notável, caindo para 58 deputados nas últimas eleições legislativas.

Ainda mais dramática foi a redução da representação de partidos de esquerda mais radical: o Bloco de Esquerda (BE) viu sua bancada diminuir de 19 para apenas 1 deputado, enquanto o Partido Comunista Português (PCP) passou de 12 para 3 parlamentares. Essas quedas vertiginosas demonstram uma acentuada perda de apoio para esses partidos, que historicamente tiveram um peso considerável no parlamento. A única exceção a essa tendência de retração à esquerda foi o Livre, uma legenda de centro-esquerda que conseguiu ampliar modestamente sua presença na Assembleia, passando de 1 para 6 cadeiras. A soma desses movimentos nas legislativas pinta um quadro claro de avanço da direita e uma acentuada fragmentação e enfraquecimento das diversas correntes de esquerda, contexto que se refletiu diretamente no desfecho do primeiro turno presidencial.

Perspectivas para o segundo turno e o futuro político

O segundo turno entre António José Seguro e André Ventura promete ser uma disputa altamente polarizada e crucial para o futuro político de Portugal. Seguro, representando o campo da centro-esquerda, enfrentará o desafio de mobilizar não apenas seus eleitores fiéis, mas também atrair votos de eleitores de outras candidaturas de esquerda e centro-direita que foram eliminadas no primeiro turno. Sua campanha provavelmente se concentrará na necessidade de barrar o avanço de uma agenda de direita mais radical e na promoção da estabilidade e coesão social.

Por outro lado, André Ventura buscará consolidar o voto de direita, apelando para eleitores de João Cotrim Figueiredo, Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes, além de fortalecer sua base já existente. Sua estratégia pode focar em temas como segurança, combate à corrupção e crítica às políticas dos partidos tradicionais. O resultado deste segundo turno não apenas definirá o próximo presidente, mas também enviará um sinal claro sobre a direção política que Portugal deseja tomar, consolidando ou freando as tendências observadas nas recentes eleições legislativas e neste primeiro turno presidencial.

Perguntas frequentes sobre a eleição presidencial em Portugal

Quando será o segundo turno da eleição presidencial em Portugal?
O segundo turno da eleição presidencial em Portugal está marcado para o dia 8 de fevereiro.

Qual a importância do presidente em um sistema semipresidencialista como o de Portugal?
Em um sistema semipresidencialista, o presidente da República, embora não chefie diretamente o governo (função do primeiro-ministro), possui importantes poderes constitucionais, incluindo a nomeação do primeiro-ministro, a promulgação ou veto de leis, o comando das Forças Armadas e a representação do país no exterior. Ele desempenha um papel crucial na estabilidade política e no funcionamento das instituições democráticas.

Qual a principal tendência política observada neste primeiro turno?
A principal tendência observada foi o avanço significativo das forças de direita, especialmente com o desempenho de André Ventura, e uma notável fragmentação e enfraquecimento das candidaturas de esquerda, conforme refletido também nas últimas eleições legislativas.

Quem são os principais candidatos que avançaram para o segundo turno?
Os dois candidatos que avançaram para o segundo turno são António José Seguro (PS, centro-esquerda) e André Ventura (Chega, direita).

Mantenha-se informado sobre os desdobramentos desta eleição crucial e outros temas relevantes da política portuguesa e internacional.

Fonte: https://www.conexaopolitica.com.br

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