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Zoroastrismo: a fé que moldou o Irã antes do Islã

Vitor Ribeiro

O zoroastrismo, uma das religiões monoteístas mais antigas do mundo, emergiu na antiga Pérsia há mais de três milênios, deixando uma marca indelével na tapeçaria cultural e espiritual da região. Antes da chegada do Islã no século VII, esta fé dominava o que hoje conhecemos como Irã, servindo como pilar para poderosos impérios. Fundamentado nos ensinamentos do profeta Zaratustra, o zoroastrismo introduziu conceitos revolucionários sobre dualismo ético, livre-arbítrio e um deus criador supremo, Ahura Mazda, influenciando, inclusive, o desenvolvimento de outras grandes religiões monoteístas. Apesar de hoje contar com um número reduzido de seguidores, suas tradições milenares e seu legado filosófico continuam a ser um testemunho de sua profunda relevância histórica.

As raízes milenares de uma crença

O zoroastrismo tem suas origens em uma antiguidade remota, surgindo na Pérsia Oriental, provavelmente entre os séculos XVII e VI a.C. O coração dessa fé reside nos ensinamentos de seu fundador, o profeta Zarathushtra (ou Zaratustra), cuja mensagem visionária desafiou as práticas politeístas e rituais complexos de sua época. Ele propôs uma religião baseada na adoração de um único deus não-criado, Ahura Mazda, o “Senhor Sábio”, que representa a verdade, a ordem e a luz. Essa revolução espiritual não só transformou a paisagem religiosa persa, mas também lançou as sementes para conceitos que reverberariam por séculos, impactando o pensamento religioso mundial.

Princípios centrais e o dualismo ético

No cerne do zoroastrismo encontra-se uma compreensão singular do universo e da moralidade. Diferentemente de um monoteísmo estrito que nega a existência do mal, o zoroastrismo abraça um dualismo ético: a coexistência de dois espíritos primordiais, Spenta Mainyu (o espírito do bem, da criação, da ordem) e Angra Mainyu (o espírito do mal, da destruição, da desordem). Contudo, essa não é uma batalha entre dois deuses iguais; Ahura Mazda é o criador supremo, e Angra Mainyu é sua oposição. A humanidade, dotada de livre-arbítrio, tem a responsabilidade de escolher entre o bem e o mal, manifestando essa escolha através de bons pensamentos, boas palavras e bons atos, o que leva à progressão individual e universal em direção à ordem (Asha) e ao triunfo final de Ahura Mazda. A pureza dos elementos naturais, como fogo, água e terra, é reverenciada como manifestações da criação divina.

Avesta e os rituais sagrados

As doutrinas e práticas do zoroastrismo são registradas em seu corpo de textos sagrados, conhecido como Avesta. Embora grande parte do Avesta tenha sido perdida ao longo dos séculos, especialmente após a conquista islâmica, os Gathas, os hinos atribuídos diretamente a Zarathushtra, representam a parte mais antiga e venerada. Os rituais zoroastristas são frequentemente conduzidos em templos do fogo, onde uma chama perpétua é mantida acesa, simbolizando a luz de Ahura Mazda, a pureza e a verdade. Os sacerdotes, conhecidos como magos, desempenham um papel crucial na manutenção desses rituais e na recitação dos textos sagrados. Rituais de purificação e celebrações que marcam as estações e eventos da vida, como o Nowruz (Ano Novo Persa), são centrais para a prática da fé.

O zoroastrismo nos impérios persas

Durante séculos, o zoroastrismo ascendeu ao status de religião oficial de diversos e poderosos impérios persas, notavelmente o Império Aquemênida (550–330 a.C.), o Império Parta (247 a.C.–224 d.C.) e o Império Sassânida (224–651 d.C.). Essa proeminência transformou a fé em um pilar da identidade cultural e política persa. Reis como Ciro, Dario e Xerxes, embora possivelmente não zoroastristas ortodoxos no sentido posterior, reverenciavam Ahura Mazda e incorporavam princípios zoroastristas de justiça, ordem e verdade em seu governo. A iconografia, a arquitetura e a legislação desses impérios frequentemente refletiam valores zoroastristas, cimentando sua influência não apenas na religião, mas também na estrutura social e nas relações internacionais da antiga Pérsia, que muitas vezes demonstravam notável tolerância religiosa.

Declínio e resistência: a chegada do islã

O domínio do zoroastrismo na Pérsia foi drasticamente alterado a partir do século VII d.C. com a rápida expansão árabe-islâmica. A conquista do Império Sassânida marcou o início de um longo período de declínio para a fé. Embora initially houvesse alguma tolerância para os zoroastristas como “povos do Livro”, a pressão para a conversão ao Islã tornou-se intensa, impulsionada por incentivos fiscais e sociais. Muitos zoroastristas optaram por se converter para evitar perseguição e marginalização. Outros, buscando preservar sua fé, emigraram, sendo os mais notáveis os que se estabeleceram na Índia, onde ficaram conhecidos como Parsis. Aqueles que permaneceram no Irã enfrentaram séculos de desafios, mantendo sua fé em pequenas comunidades isoladas, muitas vezes sob condições precárias, mas com uma resiliência notável.

Zoroastrismo hoje: comunidades e legado

Atualmente, o zoroastrismo é uma fé minoritária globalmente, com estimativas de seus seguidores variando entre 100.000 e 200.000 pessoas. A maior e mais vibrante comunidade zoroastrista é a dos Parsis na Índia, especialmente em Mumbai, onde têm prosperado em áreas como negócios, filantropia e educação. No Irã, apesar de sua situação minoritária e de desafios históricos, ainda existem comunidades zoroastristas reconhecidas, principalmente nas províncias de Yazd e Kerman, que lutam para manter suas tradições vivas. Há também uma diáspora crescente em países ocidentais. Embora seus números sejam pequenos, o legado do zoroastrismo é imenso. Sua ênfase no livre-arbítrio, na responsabilidade moral individual e na vitória final do bem influenciou fortemente o judaísmo, o cristianismo e o islã, particularmente em conceitos como o céu, o inferno, o juízo final e a ressurreição, garantindo seu lugar como uma das pedras angulares do pensamento religioso da humanidade.

Perguntas frequentes sobre o zoroastrismo

O que é o zoroastrismo?
É uma das religiões monoteístas mais antigas do mundo, fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra. Baseia-se na adoração de Ahura Mazda como o deus supremo e no dualismo ético entre o bem e o mal.

Quem foi Zaratustra?
Zaratustra (ou Zoroaster) foi o profeta e fundador do zoroastrismo. Acredita-se que viveu na antiga Pérsia, em um período que varia entre 1700 a.C. e 600 a.C., e seus ensinamentos estão registrados nos Gathas, a parte mais antiga do Avesta.

O zoroastrismo ainda é praticado hoje?
Sim, o zoroastrismo é praticado por comunidades em diversas partes do mundo, embora seja uma fé minoritária. Os maiores grupos estão entre os Parsis na Índia e em pequenas comunidades no Irã, além de uma diáspora crescente globalmente.

Quais são as principais crenças do zoroastrismo?
As principais crenças incluem a adoração de Ahura Mazda (Senhor Sábio) como o deus criador supremo, a existência de dois espíritos primordiais (um bom, outro mau), a importância do livre-arbítrio e da escolha moral (bons pensamentos, boas palavras, bons atos), a reverência pela pureza dos elementos naturais (fogo, água, terra) e a crença em uma vida após a morte com recompensa ou punição.

Para aprofundar seu conhecimento sobre as raízes da civilização e as fés que moldaram o mundo, explore a história fascinante do zoroastrismo e seu impacto duradouro na cultura e na espiritualidade.

Fonte: https://danuzionews.com

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