O Brasil, infelizmente, persiste em uma posição de destaque no cenário mundial, liderando o ranking de países que mais ceifam a vida de pessoas transexuais e travestis. Em 2025, foram registrados 80 assassinatos de pessoas trans no território nacional, um número que, embora represente uma queda em relação ao ano anterior, não altera a sombria liderança que o país ostenta há quase duas décadas. Os dados mais recentes revelam uma realidade complexa, onde a diminuição numérica não se traduz necessariamente em uma redução efetiva da violência, mas sim em um alerta contínuo sobre a vulnerabilidade dessa população. A persistência dessa triste estatística sublinha a urgência de ações e políticas públicas eficazes para proteger a comunidade trans.
A persistência da violência transfóbica no Brasil
O cenário alarmante de 2025
A nona edição do Dossiê sobre Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras trouxe à tona a alarmante realidade de 80 assassinatos registrados em 2025. Este número, embora represente uma redução de aproximadamente 34% em comparação com os 122 crimes do ano anterior, não é motivo para alívio. Pelo contrário, o Brasil mantém-se no topo desse ranking global há quase 18 anos, consolidando sua posição como o país mais letal para essa parcela da população. A presidenta de uma associação representativa, Bruna Benevides, contextualiza os dados, afirmando que essas não são mortes isoladas, mas sim o resultado de um sistema que naturaliza a opressão. Ela destaca que a população trans está exposta a uma violência extrema desde muito cedo, atravessada por exclusão social, racismo, abandono institucional e sofrimento psicológico contínuo. A complexidade do cenário exige uma análise aprofundada que transcende os números superficiais.
Quem são as vítimas e onde a violência se concentra
A análise aprofundada dos dados revela um perfil específico das vítimas. A maioria é composta por travestis e mulheres trans, predominantemente jovens, com a maior incidência na faixa etária entre 18 e 35 anos. Além disso, pessoas negras e pardas são as mais atingidas por essa violência sistemática, evidenciando uma interseccionalidade de opressões. No que diz respeito à distribuição geográfica, a violência segue concentrada na Região Nordeste, que registrou 38 assassinatos em 2025. Em seguida, aparecem o Sudeste, com 17, o Centro-Oeste, com 12, o Norte, com 7, e o Sul, com 6. Ceará e Minas Gerais foram os estados com o maior número de ocorrências, com oito assassinatos cada. Um levantamento que contabilizou o período de 2017 a 2025 apontou São Paulo como o estado mais letal, com um total de 155 mortes violentas, reforçando a necessidade de políticas públicas regionalizadas e eficazes.
Desafios e recomendações para o enfrentamento
As causas ocultas da violência e subnotificação
A aparente queda no número de assassinatos não reflete uma diminuição real da violência contra pessoas trans e travestis. Pelo contrário, o dossiê alerta para um aumento no número de tentativas de homicídio, indicando que a letalidade diminuiu, mas a intenção violenta persiste. Essa discrepância é explicada por um conjunto de fatores complexos, incluindo a subnotificação dos casos, a desconfiança nas instituições de segurança e justiça, a retração na cobertura midiática de crimes de ódio e a notável ausência de políticas públicas específicas para o enfrentamento da transfobia. A transfobia, que se manifesta como preconceito, discriminação e hostilidade direcionados a pessoas transgênero, cria um ambiente onde a violência é normalizada e a impunidade, frequente. A falta de registros oficiais adequados e a dificuldade em acionar o sistema de justiça contribuem para a invisibilidade e perpetuação desse ciclo de violência.
Apelo por políticas públicas e ação estatal
Diante do cenário desolador, o dossiê não se limita a diagnosticar o problema, mas também apresenta uma série de recomendações claras e urgentes direcionadas ao poder público, ao sistema de justiça, à segurança pública e às instituições de direitos humanos. O objetivo é fomentar um diálogo construtivo e propor medidas concretas para romper com a lógica de impunidade e escassez de recursos que marca a realidade das pessoas trans no Brasil. Bruna Benevides, coautora do documento, enfatiza que o relatório “constrange o Estado”, informando a sociedade e impedindo o silêncio. Ela destaca a necessidade de reconhecer que as políticas de proteção às mulheres, por exemplo, devem ser acessíveis e disponíveis também para mulheres trans. É fundamental tornar acessível o que já existe e implementar o que ainda não foi devidamente alcançado. Há uma vasta produção de conhecimento e dados sobre o tema; o que falta, segundo ela, é ação por parte dos tomadores de decisão, que precisam transformar as recomendações em políticas efetivas e inclusivas.
O panorama abrangente da violência LGBT+ no país
A realidade além dos dados de gênero
Os dados sobre a violência contra pessoas trans e travestis são reforçados por um panorama mais amplo de violência contra a comunidade LGBT+ no Brasil. Um observatório, atualizado anualmente, documentou 257 mortes violentas em 2025 que afetaram gays, lésbicas, bissexuais e outras identidades. Desse total, 204 foram homicídios, 20 suicídios, 17 latrocínios (roubo seguido de morte) e 16 resultaram de outras causas, como atropelamentos e afogamentos. Embora tenha havido uma redução de 11,7% em relação aos 291 casos registrados em 2024, a estatística ainda é alarmante: uma morte violenta a cada 34 horas no Brasil. Esta triste realidade solidifica a posição do país como líder global em homicídios e suicídios de pessoas LGBT+, superando significativamente outras nações, como o México, que registrou 40 casos, e os Estados Unidos, com 10. Esses números ampliam a urgência de uma resposta multifacetada e integral para a violência que afeta toda a diversidade sexual e de gênero.
Consequências e o caminho para a mudança
A liderança persistente do Brasil no ranking de países que mais matam pessoas trans e travestis, e a alta incidência de violência contra a população LGBT+ em geral, é um reflexo contundente de uma sociedade que ainda falha em garantir dignidade e segurança para todos os seus cidadãos. A retração nos números absolutos de assassinatos de trans em 2025, embora um dado isoladamente positivo, deve ser vista com cautela, considerando o aumento nas tentativas de homicídio e a subnotificação generalizada. É um ciclo vicioso alimentado pela transfobia estrutural, pela falta de políticas públicas efetivas e pela invisibilidade da violência. A complexidade do problema exige uma resposta abrangente que envolva não apenas a repressão aos crimes, mas também a educação, a inclusão social e o reconhecimento pleno dos direitos das pessoas trans e LGBT+. O caminho para a mudança passa pelo compromisso inabalável do Estado e da sociedade em construir um Brasil onde a diversidade seja celebrada e a vida, protegida.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual o dado mais recente sobre assassinatos de pessoas trans no Brasil?
Em 2025, o Brasil registrou 80 assassinatos de pessoas transexuais e travestis, de acordo com o dossiê mais recente.
Houve alguma redução nesses números e o que isso significa?
Sim, houve uma redução de aproximadamente 34% em relação ao ano anterior. No entanto, o dossiê alerta que essa queda não se traduz em uma regressão efetiva da violência, pois houve aumento nas tentativas de homicídio e o país permanece líder no ranking.
Quais são as principais recomendações para combater essa violência?
As recomendações incluem o desenvolvimento de políticas públicas específicas, o aprimoramento do sistema de justiça e segurança, e a garantia de que as políticas de proteção existentes sejam acessíveis a pessoas trans, além de combater a subnotificação e promover a inclusão social.
O Brasil lidera o ranking de violência contra qual grupo?
O Brasil lidera o ranking global de assassinatos de pessoas transexuais e travestis. Além disso, é também o país com o maior número de homicídios e suicídídios de pessoas LGBT+ no mundo.
Conheça mais sobre as iniciativas de proteção e os direitos da comunidade trans e LGBT+. Sua participação e apoio são fundamentais para construir um Brasil mais justo e seguro para todos.
