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Ucrânia, Rússia e EUA negociam em Abu Dhabi pela primeira vez

Agência Brasil

Em um movimento diplomático inédito desde a invasão russa em fevereiro de 2022, Ucrânia, Rússia e Estados Unidos se reuniram para uma série de negociações em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. O foco central dessas conversações históricas é o controle sobre os territórios no leste ucraniano, uma questão que permanece como o principal entrave para qualquer acordo de paz duradouro. A confirmação do encontro, divulgada na madrugada desta sexta-feira (23), sucedeu discussões cruciais no Kremlin entre o presidente russo, Vladimir Putin, o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e Jared Kushner, genro de Donald Trump. Estas negociações trilaterais marcam um ponto de inflexão na tentativa de desescalar o conflito e buscar soluções para as complexas demandas territoriais.

O marco das negociações trilaterais

O papel dos EUA e o diálogo no Kremlin

A série de encontros que culminou nas negociações em Abu Dhabi teve um prelúdio significativo no Kremlin. A presença do enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e de Jared Kushner, uma figura próxima ao ex-presidente Donald Trump, nas conversas com Vladimir Putin, sinaliza um engajamento de alto nível por parte dos Estados Unidos. Este diálogo preliminar foi fundamental para pavimentar o caminho para a primeira reunião conjunta entre as três nações desde o início do conflito. A escolha de Abu Dhabi como local para estas conversações destaca a busca por um terreno neutro, longe das tensões diretas da Europa e da Rússia, visando facilitar um ambiente propício ao diálogo construtivo. A natureza discreta e o anúncio tardio dessas reuniões sugerem a sensibilidade e a complexidade dos temas abordados, com a intenção de manter as expectativas sob controle enquanto se testam as águas da diplomacia.

As expectativas russas e ucranianas

O conselheiro diplomático russo, Yuri Ushakov, descreveu as conversações iniciais como “úteis em todos os aspectos”, indicando um grau de progresso e a abertura para futuras discussões. Ushakov anunciou que a primeira reunião de um grupo de trabalho trilateral sobre questões de segurança ocorreria em Abu Dhabi, enfatizando a importância de uma abordagem multifacetada. Detalhes específicos sobre o conteúdo das negociações e se haveria um encontro presencial entre autoridades russas e ucranianas não foram divulgados, mantendo um véu de discrição sobre o processo. Contudo, ficou claro que um dos pontos mais sensíveis seria a controversa questão das concessões territoriais exigidas por Moscou.

Yuri Ushakov alertou que “sem resolver a questão territorial não se deve contar com um acordo de longo prazo”, reiterando a intransigência russa neste ponto. Ele afirmou que a Rússia persistirá em seus objetivos no “campo de batalha, onde as Forças Armadas russas detêm a iniciativa estratégica”, até que um acordo satisfatório seja alcançado. Do lado ucraniano, o presidente Volodymyr Zelensky confirmou que o controle sobre os territórios no leste do país, especificamente a região do Donbass (que engloba Donetsk e Lugansk), seria o ponto central das discussões. Zelensky classificou a questão do Donbass como “fundamental”, sublinhando a importância estratégica e política dessas áreas para a soberania ucraniana.

As delegações e o contexto diplomático

Composição das equipes de negociação

As delegações presentes em Abu Dhabi refletem a seriedade e a natureza estratégica das negociações. A equipe russa é liderada pelo general Igor Kostyukov, um alto funcionário do Estado-Maior, e composta exclusivamente por representantes do Ministério da Defesa do país. Esta composição militarizada sublinha a visão russa de que a questão territorial está intrinsecamente ligada à segurança nacional e à sua capacidade militar. Por sua vez, a Ucrânia enviou uma delegação de alto escalão e com representatividade ampla. Entre os membros ucranianos estão Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança; Kyrylo Budanov, chefe de gabinete; Serhiy Kyslytsia, vice-chefe de gabinete; e o general Andriy Gnatov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. A presença de líderes de segurança e militares de ambos os lados sinaliza que as discussões vão além da diplomacia convencional, mergulhando profundamente em aspectos operacionais e de segurança.

O acordo de segurança e as críticas de Zelensky

Paralelamente às negociações trilaterais, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky destacou a iminência de um acordo de garantias de segurança com os Estados Unidos. Ele afirmou que o pacto está “praticamente pronto para ser assinado”, aguardando apenas a definição de data e local por parte de Donald Trump. Este acordo é visto por Kiev como um pilar fundamental para a segurança pós-guerra, reforçando o compromisso de Washington com a defesa da Ucrânia. Na mesma entrevista, Zelensky revelou que discutiu com Trump temas cruciais como defesa aérea e cooperação econômica para a recuperação do país após o conflito.

No entanto, o contexto diplomático não foi isento de tensões. Em Davos, um dia antes da confirmação das negociações em Abu Dhabi, Zelensky teceu críticas acentuadas aos aliados europeus, descrevendo uma Europa “fragmentada” e “perdida” em sua influência sobre as posições de líderes como o presidente norte-americano, e lamentou a “falta de vontade política” do presidente russo, Vladimir Putin. Essas críticas, dirigidas aos principais apoiadores políticos e financeiros de Kiev, ocorreram após um encontro com Donald Trump em Davos, na Suíça. Apesar das complexidades, Zelensky descreveu o diálogo com o homólogo norte-americano como “positivo”, embora tenha admitido que “não foi simples”. A busca por garantias de segurança e o apelo por maior união entre os aliados europeus evidenciam a complexa teia de relações e expectativas que envolvem a Ucrânia em sua busca por um futuro seguro.

Cenários e desafios futuros

As negociações em Abu Dhabi representam um ponto crucial na busca por uma solução para o conflito ucraniano. A reunião inédita entre Ucrânia, Rússia e EUA, com foco nas complexas questões territoriais do leste ucraniano, especialmente o Donbass, demonstra a urgência de um diálogo direto, mesmo que mediado. A postura firme da Rússia em manter sua iniciativa estratégica no campo de batalha até que suas demandas territoriais sejam atendidas, somada à determinação da Ucrânia em proteger sua soberania, cria um cenário de negociação delicado e de alto risco. O desfecho dessas conversações terá um impacto profundo não apenas na Ucrânia, mas também na arquitetura de segurança global, testando a capacidade da diplomacia de prevalecer sobre o conflito armado em uma das maiores crises geopolíticas do século XXI.

Perguntas frequentes (FAQ)

Onde e quando ocorreram as primeiras negociações trilaterais entre Ucrânia, Rússia e EUA?
As negociações ocorreram em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e foram confirmadas na madrugada desta sexta-feira (23), após conversas preliminares no Kremlin.

Qual é o principal ponto de discórdia nas negociações?
O principal ponto de discórdia é o controle sobre os territórios no leste ucraniano, especialmente a região do Donbass, que inclui Donetsk e Lugansk, onde a Rússia exige concessões territoriais.

Quem representa cada país nessas conversações?
A Rússia é representada pelo general Igor Kostyukov e membros do Ministério da Defesa. A Ucrânia é representada por Rustem Umerov (Conselho de Segurança), Kyrylo Budanov (Chefe de Gabinete), Serhiy Kyslytsia (Vice-Chefe de Gabinete) e o general Andriy Gnatov (Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas).

Qual a importância do acordo de segurança com os EUA para a Ucrânia?
O acordo de segurança com os Estados Unidos é crucial para a Ucrânia, sendo considerado um pilar para a segurança pós-guerra, com foco em defesa aérea e cooperação econômica para a recuperação do país.

Mantenha-se informado sobre os desenvolvimentos dessas negociações históricas e o impacto nas relações internacionais.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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